Poucas coisas são mais assustadoras do que deixar de ver. O Dia Mundial da Visão, comemorado esta quinta-feira, é o pretexto para conhecermos uma sumidade entre os oftalmologistas.

Só quem nunca cegou pode julgar que é exagero chamar “santo” a um oftalmologista. Para Abel Rodrigues Fernandes, a palavra até peca por defeito. Dos 60 aos 65 anos, Abel viveu na escuridão quase total. E hoje, meses depois de recuperar a visão, ainda se emociona quando recorda os tempos em que via menos de cinco por cento. “Ninguém imagina o que é a pessoa pensar que ficará cega para sempre. Eu estava louco!”, conta o dono do restaurante Fortaleza da Luz, perto de Lagos. Uma doença da córnea obrigou-o a fazer dois transplantes, que correram mal, e a sua situação foi-se degradando. “Vivia com medo de tudo. Não andava sozinho e temia não chegar a conhecer a cara dos meus netos.” Até que uma sobrinha lhe marcou consulta com Joaquim Murta, diretor do serviço de oftalmologia do Centro Hospitalar de Coimbra e coordenador na clínica Idealmed. O olho esquerdo estava perdido, por causa da tensão ocular que lhe comprimia o nervo ótico. Mas, para o olho direito, Joaquim Murta prometia a cura, através de uma técnica inovadora, desenvolvida pela sua equipa: o transplante ultrafino, que recorre a um laser de femtossegundo, que corta através da libertação de um gás, com extrema precisão. Assim há menos rejeição e uma maior taxa de sucesso. “Logo que saí da sala de operações comecei a ver normalmente. Eu tinha os pensos, mas espreitei por um buraquinho e percebi que via tudo o que estava à minha volta”, recorda Abel. “Hoje vejo 100% do olho direito. Voltei a ser eu próprio. Conduzo, faço a minha vida. Aquela operação devolveu-me tudo.”

Joaquim Murta está habituado à gratidão dos doentes. “Em oftalmologia, há uma grande perceção do que se faz. Está tudo à mostra, tudo se quantifica.” Também está habituado ao pioneirismo. O centro que dirige acaba de ser referenciado como o único em Portugal com capacidade para operar tumores oculares. Até há pouco tempo, os doentes tinham de ser encaminhados para um hospital suíço. “O tratamento é uma quimioterapia suprasseletiva [extremamente localizada], que exige uma equipa multidisciplinar, bem treinada”, nota. Com exceção de duas situações muito específicas, “não há nada que se faça no estrangeiro que não façamos aqui”, sublinha o médico. “Coimbra é um exemplo a nível europeu. Só haverá outro instituto na Europa (em Inglaterra) com as mesmas características: temos bons clínicos, condições para a investigação e uma relação estabelecida entre a clínica e a investigação básica. Tudo isto em conexão com redes internacionais. E aí é que se faz a diferença.” Mas ainda há muito a fazer para melhorar a saúde visual dos portugueses. “Mais de metade dos oftalmologistas só faz privada. Além disso, estão mal distribuídos. Por isso estamos a trabalhar numa rede de referenciação que permita encaminhar os doentes de acordo com as necessidades.” E há ainda um caminho que tem de ser feito pela Ciência. “Muitas doenças nomeadamente da retina ou do nervo ótico ainda não se conseguem tratar convenientemente” admite o especialista. “No entanto , fruto de intensa investigação, muito se tem avançado nos últimos anos possibilitando recuperar doentes que outrora estavam condenados à cegueira”. Raras vezes a expressão “luz ao fundo do túnel” faz tanto sentido.

PELOS SEUS OLHOS
Alguns problemas podem ser prevenidos, ou tratados, se diagnosticados a tempo. Diabéticos, hipertensos, maiores de 65 anos e pessoas com problemas de tiroide devem ser vigiadas por um oftalmologista; crianças até aos 2 anos têm também de ser avaliadas (mesmo que pelo pediatra); aos 45 anos, recomenda-se igualmente uma consulta.

 

Fonte: http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/dia-mundial-da-visao-da-escuridao-a-luz=f832822#ixzz3o0RdcYTk

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